Identidade (Efésios 1.1-6)

 


“Lembre-se de quem você é”. Essa foi a frase que Simba escutou quando, ao esquecer quem era, passou a viver uma identidade falsa (“Hakuna Matata”). Interessantemente, para lembrar-se de quem era, Simba precisou relembrar a sua origem, de quem ele era filho; e, somente depois disso, assumiu seu papel de direito como rei.[1]

Da mesma forma, tenho percebido como esse assunto sobre identidade é extremamente importante em nossos dias. Há muitas pessoas que fazem muito para Deus, até mesmo pastores, mas que não sabem quem são de fato. Acham que o que fazem é o que as define diante de Deus. Mas não! De fato, não. Então, surge a pergunta: o que somos? O que define nossa identidade?

Nesse contexto, o pós-modernismo, e mais especificamente uma filosofia chamada existencialismo, trouxe ao homem um problema gigantesco de identidade, algo que essa própria filosofia chama de “angústia”, que é o ter que se definir e definir tudo ao seu redor. A ideia é essa, e por isso o nome existencialismo: o que você é, é definido por sua existência. Sua identidade é a forma que você decide existir. Você é aquilo que decide ser.

Mas qual é o problema disso? Um exemplo claro do desdobramento dessa visão foi o que aconteceu em Berlim, em 2023, em um evento que reuniu cerca de 1000 manifestantes que protestaram pelos direitos de pessoas que se identificam como cachorros.[2]

E assim caminha a humanidade. O homem perdeu a noção do que realmente é. As ideologias, o engano e a corrupção do nosso próprio coração fizeram com que todos se perdessem nessa angústia e nesse vazio, que não é apenas existencial, mas também essencial, pois já não sabemos o que somos.

No entanto, não podemos olhar para esses manifestantes com prepotência, como se fôssemos melhores do que eles. Pelo contrário, o sentimento que devemos ter é o mesmo de Cristo ao olhar a multidão: “Ao ver as multidões, Jesus se compadeceu delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mateus 9.36).

Além disso, é importante reconhecer que até mesmo um cristão verdadeiro pode se perder em relação à sua identidade em Cristo. Isso acontece quando ele a busca naquilo que faz, em sua profissão, na riqueza, no ministério, na opinião das pessoas, na aceitação e aprovação dos outros, ou até mesmo naquilo que acha que é, muitas vezes movido por engano.

É exatamente aqui que o texto de hoje nos ajuda: ele nos chama a lembrar quem somos. No entanto, é importante destacar que esse texto não fala sobre todas as pessoas, mas sobre aqueles que estão “em Cristo”. Portanto, vejamos nossa identidade em Cristo:

1. Em Cristo somos de Deus – v.1-2. Paulo se apresenta como “apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus”. A ênfase de sua apresentação recai sobre a expressão “vontade de Deus”, expressão que ele retomará adiante ao falar sobre a nossa adoção. Ser apóstolo, por sua vez, não é a identidade de Paulo, mas a função que ele exerce em seu chamado.

Isso fica ainda mais evidente na forma como ele se refere à igreja, a quem a carta é endereçada. Os destinatários são os santos que vivem em Éfeso. Mas quem são esses? Toda a igreja de Éfeso. O termo santo não se refere a uma classe especial de crentes, mas a toda a igreja. Esse termo significa “separados”, “consagrados”, isto é, o povo que pertence ao Senhor, como lemos em 1 Pedro 2.9: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.”

Além disso, eles são chamados de fiéis em Cristo Jesus, termo que também pode ser traduzido como crentes em Cristo Jesus.[3] São aqueles que creram em Cristo e permanecem perseverantes nessa fé. Em seguida, temos a saudação comum nas cartas de Paulo: “graça e paz”. Observe que essa graça e paz procedem de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Portanto, o ponto que fica evidente em toda essa saudação é: quem é a igreja e a quem nós pertencemos.

O Catecismo de Heidelberg (1563) fala sobre isso que estou destacando. Nele, em sua primeira pergunta, temos o seguinte: “Qual é o seu único consolo na vida e na morte? Que não pertenço a mim mesmo, mas pertenço de corpo e alma, tanto na vida quanto na morte, ao meu fiel Salvador Jesus Cristo. Ele pagou por todos os meus pecados com seu precioso sangue, libertou-me do domínio do diabo e me protege de tal maneira que, sem a vontade do meu Pai celeste, nem um fio de cabelo pode cair da minha cabeça; sim, tudo coopera para a minha salvação. Por isso, pelo Espírito Santo, ele me garante a vida eterna e me deixa disposto e pronto a viver para ele, daqui em diante.”[4] Esse é o nosso consolo, e é também nesse fato que está a nossa identidade.7

Mas o texto não para por aí,  Paulo aprofunda ainda mais essa verdade e nos mostra outro aspecto fundamental de nossa identidade em Cristo:

2. Em Cristo somos abençoados – v.3-4. O versículo 3 apresenta o tema de toda a carta aos Efésios: “As bençãos espirituais que temos nas regiões celestiais através de Cristo Jesus.” O texto começa com louvor, engrandecendo o nome de Deus pelas bênçãos que Ele nos concedeu em Cristo Jesus. A expressão “em Cristo” aparece repetidamente e voltaremos a ela na conclusão.

Mas por que ser abençoado diz algo sobre nossa identidade? Não seria isso algo circunstancial? Nesse caso, não. O texto afirma que recebemos todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo. Essas “regiões celestiais” se referem ao domínio celestial de Cristo, onde também reinamos com Ele. Paulo ensina que estamos tão unidos a Cristo que morremos, ressuscitamos e reinamos com Ele.

Bryan Chapell afirma: “Por causa da nossa união com Cristo, que está no céu, também nós estamos no céu com Deus. Na nossa união com Cristo, já somos participantes dessa realidade espiritual, embora isso não seja totalmente efetivado até que estejamos no nosso estado glorificado, libertos do nosso corpo mortal e das limitações da nossa existência temporal. Isso significa que já vivenciamos aspectos do céu, embora ainda não tenhamos chegado lá.”[5]

 Essa união com Cristo se torna ainda mais clara no versículo 4, que apresenta outra razão para essas bênçãos: “Deus nos escolheu ‘Nele’”. Trata-se de uma escolha soberana, livre, que não depende de nós, da nossa bondade ou da nossa performance. Como destaca Stuart Olyott: “A razão pela qual alguns entram nas riquezas irrestritas do céu por meio do Senhor Jesus Cristo está em Deus, e não em nós.”[6] Deus livremente me escolheu, e isso faz toda diferença em minha vida.

O final do versículo 4 reforça o que vimos anteriormente: fomos escolhidos para sermos santos, separados, consagrados a Deus. Isso impacta diretamente nossa prática, razão pela qual aparece o termo “irrepreensíveis”. Somos salvos para viver de modo diferente, em retidão, à semelhança de Cristo.

Mas não para por aí, avançando no texto, chegamos a um ponto ainda mais profundo:

3. Em Cristo somos filhos amados – v.5-6. “Em amor, Deus nos predestinou para Ele, para adoção de filhos”. Isso significa que somos dEle, escolhidos e destinados, pelo amor do Pai, antes mesmo de nascermos ou da criação do mundo, para sermos filhos, por meio de Cristo, segundo o propósito de sua vontade. Aqui chegamos no ápice de nossa identidade em Cristo: somos filhos amados.

Sinclair Ferguson, é muito exato em afirmar que: “A noção de que somos filhos de Deus, Seus próprios filhos e filhas... é a mola mestra da vida cristã... Nossa filiação a Deus é o ápice da Criação e o objetivo da redenção”.[7] Verdade que é confirmada em todo Novo Testamento, como em João 1.12–13: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. E em 1 João 3.1: “Vejam que grande amor o Pai nos tem concedido, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu”.

Além disso, o versículo 6 afirma que Deus nos concedeu gratuitamente esse privilégio, que recebemos no Amado, isto é, em Cristo. E tudo isso tem um propósito: o louvor da glória de sua graça. O fim principal da nossa vida, da nossa salvação e da nossa adoção é a glória de Deus.

Em resumo, nossa identidade está em Cristo. Essa é a verdade de Efésios 1.1-6. Sobre isso, Stuart Olyott afirma: “Toda bênção espiritual que existe está em Cristo. Nós as recebemos sob nenhuma outra condição senão a de estarmos em Cristo. Uma vez que uma pessoa tenha recebido o Senhor Jesus Cristo, não há mais nada a receber.” E ainda: “Ele o escolheu, e o Bom Pastor deu a vida por você, muito antes de você nem sequer saber quem ele é. E então ele o encontrou, a você, ovelha perdida. Foi tudo obra dele. É tudo da graça, da gloriosa graça, da graça de Deus. Sua intenção ao nos salvar é que exista um cortejo inumerável de pessoas que, por toda a eternidade, louve a glória de sua graça.”[8]

Diante disso, fica uma pergunta: você está unido a Cristo? Se ainda não, creia, entregue-se, ore neste momento: Jesus, seja o Senhor e Salvador da minha vida, tira minha angústia e me dá a identidade de ser filho de Deus, pertencente ao Senhor e abençoado.

Por outro lado, se Jesus Cristo já é o seu Senhor e Salvador, então lembre-se de quem você é. Não do que você acha que é, do que você diz que é ou do que os outros dizem que você é. Não defina seu valor pelo que você faz ou pelo que você tem. Não confunda função com identidade. Não caia na angústia de não saber quem você é.

Assim, desfrute da realidade de ser abençoado com todas as bênçãos celestiais em Cristo Jesus. Encha o seu coração da certeza de que você foi escolhido por Deus, separado para Ele e está sendo transformado à semelhança de Cristo. 

Por fim, não viva neste mundo como um órfão sendo filho. Você não precisa provar seu valor para Deus. Creia e descanse em seu amor, em sua graça. E, dessa forma, viva intensamente a realidade de ser filho amado de Deus, para o louvor da glória de sua graça. 



[1] CINEMA COM RAPADURA. As lições de O Rei Leão: o que a jornada de Simba nos ensina sobre a vida. 26 jul. 2019. Disponível em: https://cinemacomrapadura.com.br/colunas/554178/as-licoes-de-o-rei-leao-o-que-a-jornada-de-simba-nos-ensina-sobre-a-vida/. Acesso em: 18 abr. 2026.

[2] CNN BRASIL. Berlim tem protesto pelos direitos de pessoas que se identificam como cachorros. São Paulo, 21 set. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/berlim-tem-protesto-pelos-direitos-de-pessoas-que-se-identificam-como-cachorros/. Acesso em: 18 abr. 2026.

[3] TAYLOR, W. C. In Dicionário do Novo Testamento Grego.11a Edição. JUERP: 2011, p.175.

[4] HEIDELBERG CATECHISM. Lord’s Day 1. Disponível em: https://www.heidelberg-catechism.com/pt/lords-days/1.html. Acesso em: 18 abr. 2026.

[5] CHAPELL, Bryan. Estudos bíblicos expositivos em Efésios. Tradução de Vanderlei Ortigoza. São Paulo: Cultura Cristã, 2018. Recurso eletrônico (ePub).

[6] OLYOTT, Stuart. A Carta aos Efésios bem explicadinha. Tradução de Thomas Neufeld de Lima. São Paulo: Cultura Cristã, 2024. Recurso eletrônico (ePub).

[7] FERGUSON, Sinclair B. Children of the Living God. Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1989.

[8] OLYOTT, Stuart. A Carta aos Efésios bem explicadinha. Tradução de Thomas Neufeld de Lima. São Paulo: Cultura Cristã, 2024. Recurso eletrônico (ePub).

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